Sobre Mim
Anabela Reis Moreira
Há percursos que se contam por cargos, por instituições ou pelos países onde aconteceram. O meu nunca fez muito sentido dessa forma. Sempre tive a convicção de que aquilo que verdadeiramente define uma carreira não é a sucessão de funções desempenhadas, mas a forma como cada experiência nos obriga a pensar melhor sobre o mundo e sobre a responsabilidade que temos perante ele.
Hoje trabalho na intersecção entre Ética, Inteligência Artificial, Cultura Organizacional e Decisão. Investigo, escrevo, ensino e acompanho organizações que procuram integrar tecnologia sem perder aquilo que as torna verdadeiramente competitivas: a capacidade de pensar, de decidir e de exercer discernimento num contexto onde tudo parece exigir respostas cada vez mais rápidas.
Não acredito que o maior desafio da Inteligência Artificial seja tecnológico. Acredito que seja humano.
A tecnologia continuará a evoluir, os modelos tornar-se-ão mais sofisticados, os processos mais automatizados e as decisões mais apoiadas por algoritmos. Nenhuma dessas transformações elimina, contudo, a necessidade de julgamento, de responsabilidade ou de consciência. Pelo contrário. Quanto mais poder entregamos à tecnologia, maior passa a ser a responsabilidade de quem a utiliza.
Foi esta convicção que acabou por dar coerência a um percurso que, olhando para trás, sempre esteve ligado às mesmas perguntas.
Muito cedo descobri que escrever era uma forma de compreender o mundo. Ainda adolescente, participei em concursos nacionais sobre a construção europeia e sobre a história de Portugal, experiências que me levaram a conhecer instituições, culturas e realidades muito diferentes das minhas. Mais importante do que os prémios, ficou a consciência de que as ideias têm consequências e de que pensar com rigor nunca é um exercício académico; é uma forma de intervenção.
Essa curiosidade conduziu-me naturalmente ao Direito, na Universidade de Coimbra, onde encontrei um espaço privilegiado para aprofundar a reflexão sobre justiça, instituições e responsabilidade. Foi também em Coimbra que fundei a ELSA — The European Law Students’ Association — na Faculdade de Direito, iniciando um percurso associativo que me levaria, anos mais tarde, à Presidência Internacional da organização, coordenando uma estrutura presente em quarenta e um países.
Trabalhar com culturas tão diferentes, negociar interesses muitas vezes contraditórios e liderar equipas espalhadas por toda a Europa ensinou-me uma das lições mais importantes da minha vida profissional: as organizações raramente falham por falta de inteligência. Falham porque confundem conhecimento com sabedoria, informação com compreensão e rapidez com qualidade da decisão.
Ao longo desse percurso tive oportunidade de colaborar com instituições como as Nações Unidas, o Tribunal Penal Internacional e o Conselho da Europa. Foram experiências que aprofundaram uma convicção que nunca mais abandonaria o meu trabalho: a legalidade estabelece limites, mas é a ética que define a direção.
Essa distinção tornou-se ainda mais evidente quando entrei definitivamente no mundo empresarial.
Ao longo dos últimos anos acompanhei organizações nacionais e internacionais em processos de formação, transformação organizacional, desenvolvimento de liderança e gestão da mudança. Trabalhei com empresas como a EY, BNP Paribas, Fujitsu, Grupo JAP, Grupo Entreposto e muitas outras, sempre com a mesma preocupação: ajudar pessoas e organizações a tomar melhores decisões num contexto cada vez mais complexo.
Foi precisamente aí que a Inteligência Artificial deixou de ser um tema de futuro para passar a ser uma prioridade do presente.
Rapidamente percebi que muitas empresas estavam concentradas em escolher ferramentas, quando a verdadeira questão era muito mais profunda. O problema nunca foi saber qual a plataforma utilizar. O problema era compreender como preservar pensamento crítico, responsabilidade e cultura organizacional num contexto em que as decisões passam a ser influenciadas por sistemas capazes de produzir respostas em segundos.
É esse o foco do meu trabalho.
Desenvolvo programas de formação executiva, modelos de governação tecnológica, metodologias de decisão, diagnósticos culturais e frameworks que permitem integrar Inteligência Artificial de forma responsável, sustentável e alinhada com a identidade de cada organização. Interessa-me menos ensinar pessoas a utilizar ferramentas e muito mais ajudá-las a desenvolver critérios para decidir quando, porquê e até onde essas ferramentas devem ser utilizadas.
Paralelamente continuo a escrever, porque continuo a acreditar que a escrita é uma das formas mais exigentes de pensamento. Sou autora de obras técnicas e de literatura infantil, duas linguagens aparentemente distantes, mas que partilham a mesma intenção: tornar ideias complexas acessíveis sem lhes retirar profundidade.
Também criei a Amor-Inn Nature Charming Houses, um projeto que nasceu da vontade de construir experiências onde o detalhe, o cuidado e a hospitalidade fossem vividos como uma extensão natural daquilo em que acredito. Porque liderar, ensinar ou receber pessoas são, no fundo, expressões diferentes da mesma responsabilidade: criar contextos onde os outros possam crescer.
A maternidade trouxe uma nova dimensão a esse entendimento. Tornou o tempo mais exigente, mas também mais consciente. Recordou-me que nenhuma carreira faz sentido se não contribuir para algo que permanece para além de nós.
É por isso que continuo a investigar, a escrever e a trabalhar com organizações que compreendem que o futuro não dependerá apenas da velocidade com que adotamos novas tecnologias, mas da maturidade com que aprendemos a utilizá-las.
Acredito profundamente que quanto mais conhecimento desenvolvemos, menor é a probabilidade de sermos condicionados por narrativas simplistas, por decisões automáticas ou por sistemas que prometem pensar por nós.
A minha missão continua a ser exatamente essa: ajudar pessoas e organizações a pensar com maior profundidade, a decidir com responsabilidade e a construir culturas onde a inovação nunca acontece à custa da consciência.
Porque a tecnologia continuará a evoluir. A questão verdadeiramente decisiva será sempre outra: estaremos nós a evoluir com ela?
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