MULHER-PILAR: Os perigos sistémicos do condicionamento de meninas e mulheres
É conhecido e assumido o meu ativismo pelos direitos humanos. É conhecido e assumido o meu trabalho contínuo sobre os direitos humanos das mulheres. Durante muito tempo estive à frente, ou seja, após a violação de direitos humanos, orientar para essa mulher ter apoio institucional, apoio emocional, e intervenção da justiça.
Hoje estou mais atrás: na consciência sistémica do papel da mulher. Na consciência dos padrões que nos levam a ser vistas como o “sexo fraco”, quando analisadas as variáveis, somos o sexo forte, somos mulheres-pilares, mulheres-mulheres, mulheres-cuidadoras, mulheres-mães, mulheres-profissionais, mulheres-casa, mulheres-filhas, mulheres-irmãs, e continuaria…
Esta semana que passou numa conversa com uma colaboradora, em que ela me dizia de forma orgulhosa e de lágrimas nos olhos que é o pilar de toda a família, comecei a ir mais a fundo neste artigo.
Antes disso vi um vídeo de uma menina de 4 anos que a comer o seu almoço. A mãe disse-lhe: “Posso beber um bocadinho da tua bebida?” Ela olhou a mãe nos olhos e disse de forma clara: “NÃO”. E voltou a comer.
A mãe disse: “Está bem.” A mãe não a pressionou. A mãe não a fez sentir-se mal por querer a bebida só para ela. A mãe não disse “as meninas boas partilham”. Porque a pessoa mais importante no seu mundo, a mãe, respeitou o seu não, esta menina aprendeu uma lição valiosa. É ACEITÁVEL DIZER NÃO. E adultos saudáveis vão respeitar isso. No futuro, quando alguém não respeitar o seu não, esta menina vai entender que o problema está neles, não nela.
Os perigos sistémicos do condicionamento de meninas e mulheres
O condicionamento é uma forma de manipulação, seja ela positiva ou negativa. Desde tenra idade, as mulheres são condicionadas a cuidar dos outros e a colocar as necessidades alheias antes das suas. Durante a infância e até mesmo na idade adulta, ouvimos frases que reforçam esse condicionamento, tais como: “vais aborrecer as pessoas”, “não tenhas esse mau feitio”, “não sejas complicada!”, “porque é que estás a fazer esse drama?”, “não chateies o teu pai!”, “dá um beijinho ao teu tio/avô/pai senão ele fica triste”, “tens de ser uma boa menina”, “cura esse mau feito e volta aqui quando te passar essa fúria!” e outras frases com conotações e sentidos semelhantes.
Reforçadas repetidamente, estas mensagens desconectam as mulheres da sua intuição e dos seus alarmes internos que sinalizam perigo. Isso cria um padrão de ceder para apaziguar os outros. Mesmo que a sua raiva ou desconforto sejam válidos, dizem-lhes para não os sentir. É-lhes ensinado que devem manter a paz a todo o custo, evitando conflitos e dizendo sim a tudo. Assim, em vez de serem criadas para expressar os seus limites e o que sentem, para dizer “não” a situações que as deixam desconfortáveis, são criadas para manter a paz, evitar conflitos e concordar com tudo. São ensinadas a calar-se.
Este condicionamento torna as mulheres vulneráveis à manipulação e cria a crença de que devem permanecer em situações prejudiciais. Desapontar alguém faz com que sintam que fizeram algo errado. Em vez de serem encorajadas a expressar as suas necessidades e emoções, são-lhes ensinadas a silenciá-las. Isto resulta numa desconexão das suas próprias necessidades e desejos, deixando-as numa posição de submissão.
Daí a explicação sistémica de mulheres permanecerem em relações de violência doméstica, esperando sempre conquistar a paz. Ainda que sejam independentes financeiramente, não o são emocionalmente.
O que nos diz a psicologia social
As mulheres são socializadas para serem “boas meninas”, para agradarem aos outros e evitarem causar qualquer tipo de desconforto. É-lhes ensinado a evitar confrontos, mesmo quando têm razões válidas para expressar a sua raiva ou desconforto. Isto cria uma dinâmica em que as mulheres se preocupam mais com o bem-estar dos outros do que com o seu próprio bem-estar.
Este condicionamento sistémico tem consequências negativas tanto para as mulheres individualmente como para a sociedade como um todo. Quando as mulheres são constantemente incentivadas a colocar as necessidades dos outros acima das suas, perdem a ligação com a sua própria voz interior e intuição. Acabam por negligenciar os seus próprios limites e ignorar os sinais de perigo. Sofrem sozinhas e tentam anular constantemente também o sofrimento e desconectam.
Esta desconexão das suas próprias necessidades e desejos torna as mulheres mais propensas a aceitar situações prejudiciais e abusivas. Sentem-se obrigadas a permanecer em relacionamentos tóxicos, empregos insatisfatórios ou situações em que são desrespeitadas, porque acreditam que não têm permissão para expressar o seu descontentamento ou dizer “não”.
Além disso, este condicionamento contribui para a desvalorização das mulheres e perpetua desigualdades de género. Ao serem ensinadas desde cedo a serem agradáveis e submissas, as mulheres são menos propensas a assumir papéis de liderança, a expressar as suas opiniões de forma assertiva e a reivindicar os seus direitos. Isto limita o seu potencial e reforça estereótipos de género prejudiciais.
Romper o status quo e o padrão
Para quebrar este ciclo de condicionamento, é crucial promover uma educação que encoraje as meninas e as mulheres a expressarem os seus sentimentos, a definirem os seus limites e a valorizarem a sua intuição. Precisamos de criar um ambiente em que as mulheres se sintam plenamente capazes para dizer “não” quando se sentem desconfortáveis ou em perigo. Isto requer uma mudança cultural e uma redefinição dos padrões de comportamento aceitáveis.
É essencial que as mulheres sejam vistas como indivíduos completos, com necessidades e desejos legítimos. Têm o direito de expressar o que sentem e de definir os seus próprios limites, sem medo de serem rotuladas como “difíceis” ou “complicadas” e outros adjetivos bem piores. Ao desafiar este condicionamento, as mulheres estão a abrir caminho para um mundo mais seguro e equitativo para si próprias e para as gerações futuras.
A criação de filhas e filhos deve incluir a promoção da expressão saudável de emoções, a valorização do respeito mútuo e a defesa dos direitos individuais. Devemos ensiná-los a reconhecer os limites das outras pessoas e a respeitá-los, bem como a comunicar de forma assertiva as suas próprias necessidades e desejos. Ao fazer isso, estaremos a criar uma nova geração de mulheres e homens que valorizam a igualdade, o respeito e a autonomia individual.
Dizer NÃO garante respeito por nós e pelos outros.
Quebrar este padrão trará sim, um mundo mais equitativo, leal e seguramente com paz.



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